A Ferida que Não Tem Nome
Há dores que não sangram, mas pesam mais que chumbo. Feridas que não se mostram ao espelho, nem ao médico, nem ao amigo que pergunta, com sincero cuidado: “Tudo bem?” E a gente responde, quase sem pensar: “Tudo.” Não é mentira. É apenas o que sobrou da verdade depois que o silêncio a mastigou por anos. Algumas coisas nos machucam tanto que, para sobreviver, precisamos fingir que não existem. Não por orgulho, não por fraqueza — mas porque, às vezes, nomear a dor é dar a ela permissão para ocupar a sala inteira. E a gente já está morando no corredor, de ponta-cabeça, segurando o teto com as unhas. Há feridas que nem sabemos que carregamos. Elas vivem lá no porão do corpo — entre memória e músculo, entre o que foi dito e o que foi engolido. Um elogio forçado ao chefe que humilhou. Um “não tem problema” dito com um sorriso enquanto o peito se fecha como porta de cofre. A risada fácil na festa, depois da ligação que não veio. O silêncio após o “te amo” que não foi correspon...