A Ferida que Não Tem Nome
Há dores que não sangram, mas pesam mais que chumbo. Feridas que não se mostram ao espelho, nem ao médico, nem ao amigo que pergunta, com sincero cuidado: “Tudo bem?”
E a gente responde, quase sem pensar: “Tudo.”
Não é mentira. É apenas o que sobrou da verdade depois que o silêncio a mastigou por anos.
Algumas coisas nos machucam tanto que, para sobreviver, precisamos fingir que não existem. Não por orgulho, não por fraqueza — mas porque, às vezes, nomear a dor é dar a ela permissão para ocupar a sala inteira. E a gente já está morando no corredor, de ponta-cabeça, segurando o teto com as unhas.
Há feridas que nem sabemos que carregamos.
Elas vivem lá no porão do corpo — entre memória e músculo, entre o que foi dito e o que foi engolido. Um elogio forçado ao chefe que humilhou. Um “não tem problema” dito com um sorriso enquanto o peito se fecha como porta de cofre. A risada fácil na festa, depois da ligação que não veio. O silêncio após o “te amo” que não foi correspondido — mas que fingimos que foi.
Essas dores não têm diagnóstico. Não aparecem em exames. Só se revelam em detalhes:
– no jeito como evitamos certos assuntos como se fossem esquinas perigosas;
– no sono que demora a vir, não por insônia, mas porque o pensamento volta àquela cena — aquela mesma cena — como se procurasse uma saída que nunca existiu;
– no corpo que, de repente, se cansa demais: uma gripe que não passa, uma dor nas costas sem causa ortopédica clara, uma garganta que aperta toda vez que alguém pergunta: “Você tem certeza de que está tudo bem?”
O mais triste não é esconder a dor dos outros.
É escondê-la de si mesmo.
Construímos dentro de nós um arquivo sigiloso, de acesso restrito até para o dono do corpo.
Botamos rótulos falsos nas caixas: “É só cansaço.”
“Todo mundo passa por isso.”
“Não é nada demais.”
Mas o coração sabe. E o coração, fiel e teimoso, insiste em bater mais rápido toda vez que passamos perto da verdade.
Curar-se, então, não começa com um grito.
Começa com um sussurro interno:
“Será que… isso aqui me faz mal?”
Uma pergunta pequena, quase tímida — mas capaz de abalar paredes que levamos décadas erguendo.
Curar-se é permitir que o que foi enterrado venha à superfície — não para apodrecer exposto, mas para ser examinado com gentileza. É dizer, em voz baixa (talvez só para o travesseiro):
“Foi difícil. Foi injusto. Deixou marca.”
É entender que não precisamos justificar o que nos feriu para ter o direito de sarar.
E talvez a cura mais profunda não seja apagar a ferida — mas parar de fingir que ela não existe.
Dar-lhe um nome, mesmo que provisório.
Dar-lhe espaço, mesmo que pequeno.
Dar-lhe tempo — não para esquecer, mas para que ela finalmente deixe de ser dona do seu silêncio.
Porque há feridas que não precisam de curativo.
Só precisam ser vistas.
E, por um instante, acolhidas —
como se acolhe um estranho que, no fundo, sempre morou em casa.
Você não precisa contar para ninguém.
Mas, por favor:
conta para você.
Antes que o silêncio aprenda a respirar por você.

Gilson você é incrível! Fico encantada com a suavidade e beleza em que você escolhe as palavras para falar de algo tão difícil e profundo! Bravo!👏
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