Confissões de um Chato Feliz

 

Foi numa quarta-feira qualquer — dessas que não pedem comemoração nem justificam lamento — que percebi, com uma clareza quase incômoda, que sou uma pessoa chata. Não do tipo que corrige os outros ou insiste em piadas sem graça. Mas do tipo que prefere silêncio a som alto, profundidade a agito, e um café quente a um open bar lotado.

A constatação veio quando, pela terceira vez na mesma semana, recusei um convite para “sair pra desencanar”. Não é que eu não queira desencanar. É que, pra mim, desencanar não envolve multidões, batida eletrônica e conversas gritadas sobre nada. Desencanar, no meu mundo, é andar sozinho pela rua de madrugada, ouvir o som dos próprios passos e, de repente, sorrir diante do absurdo maravilhoso de estarmos vivos num universo infinito e indiferente.

Não sei se algum dia fui desses caras do agito. Talvez tenha fingido por um tempo — na esperança de que a alegria alheia fosse contagiosa, ou ao menos convincente. O que descobri é que me alegra muito mais um papo atravessando a madrugada com alguém disposto a falar de verdade: sobre medo, desejo, fracasso, esperança. Prefiro um olhar que sustenta o silêncio a corpos que se tocam sem realmente se ver.

Valorizo, sim, mais um abraço apertado e sincero do que o sexo casual. Não por puritanismo, nem por medo, mas por necessidade de conexão real. Quero sentir o coração do outro batendo, não apenas o calor da pele. Quero ouvir o silêncio que existe entre duas pessoas que se entendem sem precisar preenchê-lo.

Vivemos numa época em que “estar junto” virou quase uma obrigação moral. É preciso estar conectado, visível, reagindo, compartilhando. Mas fui me descobrindo cada vez mais confortável na minha própria companhia. Não sou solitário — sou seletivo. Há uma diferença sutil, mas decisiva. Solitário é quem se sente abandonado; eu me sinto inteiro quando estou comigo. É na solitude que mais me reconheço.

Às vezes me pergunto se essa escolha é coragem ou cansaço. Talvez seja um pouco dos dois. Ainda assim, aos poucos, percebi que ser chato não é um defeito — é uma forma de resistência. Resistência à exigência de ser interessante o tempo todo. Resistência à ideia de que felicidade precisa ser barulhenta, rápida e numerosa.

A minha felicidade é lenta. Silenciosa. E, muitas vezes, invisível para quem só olha de fora.

Ser chato, neste mundo, é quase um ato de coragem. É escolher ser fiel a si mesmo mesmo quando isso significa não caber nas caixinhas prontas. É entender que não preciso agradar ninguém se estou em paz comigo.

Então, sim: sou chato.
Mas sou um chato feliz — e, às vezes, isso basta.


Comentários

  1. Que bom que vc é um chato meu amigo, melhor ainda que encontrou paz e felicidade em toda essa custura. Lindo texto!

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