Confissões de um Chato Feliz
Foi numa quarta-feira qualquer — dessas que não pedem comemoração nem justificam lamento — que percebi, com uma clareza quase incômoda, que sou uma pessoa chata. Não do tipo que corrige os outros ou insiste em piadas sem graça. Mas do tipo que prefere silêncio a som alto, profundidade a agito, e um café quente a um open bar lotado. A constatação veio quando, pela terceira vez na mesma semana, recusei um convite para “sair pra desencanar”. Não é que eu não queira desencanar. É que, pra mim, desencanar não envolve multidões, batida eletrônica e conversas gritadas sobre nada. Desencanar, no meu mundo, é andar sozinho pela rua de madrugada, ouvir o som dos próprios passos e, de repente, sorrir diante do absurdo maravilhoso de estarmos vivos num universo infinito e indiferente. Não sei se algum dia fui desses caras do agito. Talvez tenha fingido por um tempo — na esperança de que a alegria alheia fosse contagiosa, ou ao menos convincente. O que descobri é que me alegra muito mais um...