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Mostrando postagens de outubro, 2025

Amores de Papel

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Desde menino, aprendi a amar à distância. Não por escolha, mas por instinto de sobrevivência. Enquanto meus colegas corriam atrás de namoros efusivos, beijos roubados no pátio e juras trocadas em bilhetinhos amassados, eu preferia observar — calado, distante, seguro. Meu coração batia mais forte não por quem estava ao meu lado, mas por quem jamais estaria. Eram sempre os impossíveis: a menina que mal sabia meu nome, o colega que vivia cercado de admiradores, a pessoa que brilhava tanto que meus olhos doíam só de olhar. Escolhia-os com precisão cirúrgica, como se meu inconsciente soubesse que, quanto mais inalcançável o amor, menos chance eu teria de ser rejeitado. Afinal, se nunca me declarasse, nunca ouviria um “não”. E, na minha lógica torta de adolescente inseguro, isso era vitória. O amor platônico virou meu refúgio. Nele, eu podia idealizar à vontade: construía castelos com sorrisos breves, poemas com olhares acidentais, romances inteiros com um “oi” dito ao passar no corredor. Er...

Amores de Longe

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  Há quem diga que o amor verdadeiro exige coragem. Que é preciso mergulhar de cabeça, entregar-se sem freios, arriscar o coração como quem joga tudo numa única aposta. Mas há também os que, em silêncio, escolhem amar de longe — não por medo do amor em si, mas por medo do que ele pode fazer quando se instala demais. Conheço bem esse tipo de amor. É o amor que floresce em cartas não enviadas, em olhares sustentados por segundos a mais do que o necessário, em músicas ouvidas à meia-noite com o nome de alguém sussurrado entre os versos. É o amor que vive na imaginação, onde tudo é perfeito porque nada foi testado pela rotina, pelos desentendimentos banais, pelas feridas do cotidiano. Escolhemos amores impossíveis não por falta de desejo, mas por excesso de autopreservação. É mais fácil amar quem está distante — geograficamente, emocionalmente, temporalmente — porque esse amor não exige entrega total. Não exige vulnerabilidade. Não exige que a gente se exponha, que chore, que ...

O Inimigo que Moramos

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Todo mundo já teve um plano perfeito. Um sonho bem desenhado, com data marcada, passos claros e até uma playlist motivacional. Mas, de repente, sem aviso, algo dentro da gente começa a desmontar tudo — como se tivéssemos um sabotador interno, vestido de dúvida, sussurrando frases do tipo: “Você não está pronto”, “Alguém melhor vai aparecer”, ou, pior ainda: “Se você falhar, vão rir de você”. A auto sabotagem emocional não chega com trombetas. Ela se infiltra sorrateira, disfarçada de prudência, de humildade, até de autocrítica saudável. Começa com um “depois eu começo”, vira um “não vale a pena arriscar” e termina em silêncio, com o sonho guardado numa gaveta empoeirada, ao lado de outras tantas promessas que fizemos a nós mesmos. É curioso como somos capazes de torcer contra nós mesmos com mais vigor do que qualquer adversário externo. Criamos obstáculos imaginários, amplificamos falhas passadas e transformamos o medo de não ser suficiente em profecia autorrealizável. Afinal, é mais s...

Quem Amaria Alguém Como Eu?

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Há um silêncio que não é ausência de som, mas presença de dor. É o silêncio de quem já ouviu tantas vezes que não serve, que não presta, que é demais ou de menos — e acabou acreditando. É o silêncio de quem, depois de tantas portas fechadas na cara, aprendeu a trancar a própria antes que alguém tentasse entrar. Muitos de nós carregamos, em algum canto da alma, uma cicatriz feita de palavras jogadas como pedras: “esquisito”, “fracassado”, “ninguém te quer”, “você é um peso”. Palavras ditas na escola, em casa, nas redes sociais, às vezes até com sorriso no rosto — como se fosse piada, como se não machucasse. Mas machucou. E, pior: ecoou. Tanto ecoou que, com o tempo, passamos a repeti-las para nós mesmos, em voz baixa, todas as noites, antes de dormir. E então, quando alguém chega com carinho verdadeiro — um olhar terno, uma escuta atenta, um gesto simples de afeto —, em vez de abrir os braços, fechamos os punhos. Em vez de acreditar, duvidamos. “Por que essa pessoa estaria interessada e...