Quem Amaria Alguém Como Eu?

Há um silêncio que não é ausência de som, mas presença de dor. É o silêncio de quem já ouviu tantas vezes que não serve, que não presta, que é demais ou de menos — e acabou acreditando. É o silêncio de quem, depois de tantas portas fechadas na cara, aprendeu a trancar a própria antes que alguém tentasse entrar.

Muitos de nós carregamos, em algum canto da alma, uma cicatriz feita de palavras jogadas como pedras: “esquisito”, “fracassado”, “ninguém te quer”, “você é um peso”. Palavras ditas na escola, em casa, nas redes sociais, às vezes até com sorriso no rosto — como se fosse piada, como se não machucasse. Mas machucou. E, pior: ecoou. Tanto ecoou que, com o tempo, passamos a repeti-las para nós mesmos, em voz baixa, todas as noites, antes de dormir.

E então, quando alguém chega com carinho verdadeiro — um olhar terno, uma escuta atenta, um gesto simples de afeto —, em vez de abrir os braços, fechamos os punhos. Em vez de acreditar, duvidamos. “Por que essa pessoa estaria interessada em mim?”, pensamos. “O que ela quer, afinal?” Ou, mais cruel ainda: “Logo ela vai perceber quem eu realmente sou… e vai embora.”

É aí que a rejeição antiga se transforma em autoexclusão. Não é que não queiramos amor. Queremos, desesperadamente. Mas não nos sentimos dignos dele. Achamos que amor é coisa para os que brilham, para os que nunca tropeçaram, para os que nunca foram chamados de “errados”. E nós? Nós somos os que sobraram. Os que aprenderam a se esconder para não incomodar.

Mas o amor não pede currículo de perfeição. Não exige ausência de feridas. Pelo contrário: ele floresce justamente onde há vulnerabilidade, onde há coragem de mostrar as rachaduras e dizer: “Estou aqui, mesmo assim.”

O problema não é acreditar que ninguém nos amaria. O problema é ter internalizado, como verdade absoluta, a mentira de que não merecemos ser amados. E essa mentira, por mais antiga que seja, pode ser desfeita — não com grandiosidade, mas com pequenos atos de gentileza consigo mesmo. Com o direito de aceitar um elogio sem desmerecê-lo. Com o direito de acreditar que, sim, alguém pode gostar de você — não apesar das suas imperfeições, mas porque você é inteiro, com todas elas.

Quem amaria alguém como você?

Alguém que enxerga além do que disseram que você era.

Alguém que vê a sua luz, mesmo que você ainda esteja com os olhos fechados.

E, talvez, esse alguém possa começar sendo você mesmo.

Porque antes de permitir que o mundo te ame, é preciso parar de negar a si mesmo esse direito.

Você não é o que disseram que era.

Você é o que ainda pode ser — e merece, sim, ser amado nesse caminho.

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