Desarmado

 


Há um nome que chega como vento traiçoeiro,

sem aviso, sem perdão.
Em segundos o chão vira areia movediça,
o juízo, um eco lá atrás.

Sei que não devo, sei que me faz mal,
que cada toque é risco, corte sutil.
Mas quando te vejo, o pensamento some —
o corpo vira traição.

Longe, sou forte. Longe, sou razão.
Faço muros, escrevo cartas que não mando.
Planejo distâncias, prometo mudança,
digo ao peito: “desta vez não caímos.”

Basta um olhar, um sorriso torto,
um “oi” dito de lado, quase sem querer —
e tudo desaba.
O muro erguido em meses
cai em segundos, sem ruído.

Por que o peito insiste em bater por quem fere?
Por que a boca sorri quando devia chorar?
Mesmo sabendo que é veneno,
bebo do teu copo como se fosse ar.

Perto de ti, deixo de ser eu.
Sou estranho nos próprios gestos,
escravo do que devia esquecer.

O coração não lê avisos, não entende “perigo”.
Reconhece só o batimento dela,
o calor de um passado que não cura.

Vou dividido: homem de ferro de longe,
cinzas ao teu lado.
Sei que é tóxico, e ainda assim amo
como se fosse remédio.

E talvez o pior não seja o amor que fere —
é saber que, mesmo ferido,
ainda sonho em te procurar.

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