Amores de Longe

 

Há quem diga que o amor verdadeiro exige coragem. Que é preciso mergulhar de cabeça, entregar-se sem freios, arriscar o coração como quem joga tudo numa única aposta. Mas há também os que, em silêncio, escolhem amar de longe — não por medo do amor em si, mas por medo do que ele pode fazer quando se instala demais.

Conheço bem esse tipo de amor. É o amor que floresce em cartas não enviadas, em olhares sustentados por segundos a mais do que o necessário, em músicas ouvidas à meia-noite com o nome de alguém sussurrado entre os versos. É o amor que vive na imaginação, onde tudo é perfeito porque nada foi testado pela rotina, pelos desentendimentos banais, pelas feridas do cotidiano.

Escolhemos amores impossíveis não por falta de desejo, mas por excesso de autopreservação. É mais fácil amar quem está distante — geograficamente, emocionalmente, temporalmente — porque esse amor não exige entrega total. Não exige vulnerabilidade. Não exige que a gente se exponha, que chore, que espere respostas que talvez nunca venham. E, paradoxalmente, é justamente essa ausência de risco que torna o amor tão seguro... e tão vazio.

Há uma espécie de romantismo triste nisso tudo. A gente se convence de que prefere a poesia da saudade à prosa do convívio. Prefere o sonho ao real. Mas, no fundo, sabe que está usando o impossível como escudo. O coração, ferido em outras guerras, aprendeu a construir muralhas tão altas que só permite a entrada de fantasmas — figuras etéreas que não podem machucar porque, afinal, não existem de verdade.

E assim seguimos, colecionando amores que nunca se concretizam, como se fossem medalhas de honra da prudência emocional. Cuidamos de nós mesmos com tanto zelo que esquecemos que o amor, mesmo o que dói, também cura. Que a segurança absoluta é uma ilusão — e que, às vezes, é preciso correr o risco de se quebrar para, enfim, se reconstruir inteiro.

Talvez um dia, cansados de amar sombras, decidamos abrir a porta. Não para qualquer um, mas para alguém real, imperfeito, disponível. Alguém que esteja aqui — não lá, não depois, não “quem sabe um dia”. Alguém que queira entrar, mesmo sabendo que nosso coração já foi campo de batalha.

Até lá, seguiremos escrevendo cartas que não mandamos, amando de longe para não sofrer de perto. Mas, no silêncio da noite, sempre resta a pergunta: será que estamos nos protegendo... ou apenas nos escondendo?

Comentários

  1. A sua forma de escrever toca a minha alma com tanto sentimento e emoção, que me transporto para a situação como se fosse comigo!

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