Amores de Papel

Desde menino, aprendi a amar à distância. Não por escolha, mas por instinto de sobrevivência. Enquanto meus colegas corriam atrás de namoros efusivos, beijos roubados no pátio e juras trocadas em bilhetinhos amassados, eu preferia observar — calado, distante, seguro. Meu coração batia mais forte não por quem estava ao meu lado, mas por quem jamais estaria.

Eram sempre os impossíveis: a menina que mal sabia meu nome, o colega que vivia cercado de admiradores, a pessoa que brilhava tanto que meus olhos doíam só de olhar. Escolhia-os com precisão cirúrgica, como se meu inconsciente soubesse que, quanto mais inalcançável o amor, menos chance eu teria de ser rejeitado. Afinal, se nunca me declarasse, nunca ouviria um “não”. E, na minha lógica torta de adolescente inseguro, isso era vitória.

O amor platônico virou meu refúgio. Nele, eu podia idealizar à vontade: construía castelos com sorrisos breves, poemas com olhares acidentais, romances inteiros com um “oi” dito ao passar no corredor. Era um mundo onde eu controlava tudo — onde eu era digno, desejado, correspondido. Só que, por mais que me escondesse atrás dessa muralha de fantasias, a dor insistia em aparecer. Porque, mesmo sem risco de rejeição, havia a dor da ausência. A dor de saber que, por mais que eu amasse em silêncio, nunca seria visto de verdade.

Com o tempo, percebi que não era o outro que eu amava — era a ideia de ser amado por alguém que eu julgava superior. Minha baixa autoestima me convencia de que eu não merecia o amor próximo, o amor real, o amor que exige coragem. Preferia o amor de papel, aquele que não responde, não exige, não machuca... mas também não aquece.

Hoje, já adulto, ainda me pego às vezes olhando de longe, sonhando com o que não posso ter. Mas agora sei: não é o impossível que me atrai — é o medo do possível. Medo de me mostrar inteiro, com minhas rachaduras, e descobrir que, mesmo assim, posso ser escolhido. Ou não.

E talvez o verdadeiro amor não esteja na idealização, mas na coragem de se arriscar — mesmo com o coração trêmulo, mesmo com a autoestima em construção. Porque, no fim, amar de verdade é também se permitir ser amado. E isso, sim, é o maior dos desafios.

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