A sombra da normalidade

 Há amores que nascem como abrigo, como quem encontra no outro uma casa acesa em noite de tempestade. No início, tudo é calor, tudo é acolhimento. A presença do outro parece resguardar a alma dos ventos mais ásperos, e o peito respira aliviado. Mas, pouco a pouco, aquilo que era proteção vai se tornando cerca, e as paredes que antes abraçavam se erguem como grades. Não pela violência explícita, não pelo grito, mas pelo gesto delicado de quem, temendo o frio da solidão, veste a roupa alheia e deixa sua própria pele esquecida num canto. É o pacto silencioso do encaixe: a promessa de não ser demasiado, de medir cada palavra, cada sonho, cada lágrima, até caber no molde estreito do que é aceitável.

E, assim, apaga-se a chama íntima. Não de uma vez, mas em pequenos sopros diários: a piada não contada para não parecer tolo, a lágrima engolida para não ser chamado de frágil, o silêncio escolhido em vez da ousadia de dizer o que realmente pulsa. Tudo em nome da harmonia, em nome do "nós". Mas o preço é alto: a alma vai sendo anestesiada. A lareira da normalidade aquece, mas queima as cores.

Há uma solidão terrível em sustentar a própria sensibilidade diante do mundo: caminhar com pensamentos que não encontram eco, ouvir dos outros que se sente "demais", "intensamente", "inutilmente". É duro ser apontado como exagero quando, na verdade, se é apenas verdadeiro. Então, muitos se entregam ao conforto da repetição, como quem aceita viver em uma sala de ar rarefeito. Trocam os riscos pelos roteiros prontos, os gestos espontâneos pelas coreografias seguras. Renunciam ao fogo do próprio ser para abraçar uma estabilidade cinzenta. Mas é um cinza que sufoca. Um cinza que cala.

E que ironia: busca-se o amor para ser inteiro, mas nele se aprende a ser metade. Sacrifica-se o que é raro, único e intransferível em troca de uma aceitação que nunca é completa. Porque, mesmo acolhido no colo de alguém, o coração sabe quando trai a si mesmo. Ele sente: sente como se fosse uma canção engasgada, que nunca alcança o refrão; um poema rasgado antes da última estrofe; um fruto arrancado verde, que jamais terá doçura.

Essa suposta segurança que se conquista — não é paz, é adormecimento. É o amortecimento lento da alma, que aprende a sobreviver como sombra: sem risco, sem espanto, sem brilho. É como morar numa casa sem janelas, onde nada fere, mas também nada encanta. Talvez seja por isso que tantos, mesmo acompanhados, se perdem em olhares longos pela janela, como se esperassem que algo os chamasse de volta. E esperam. Porque falta. Falta o encontro verdadeiro: aquele que não exige mutilação, mas celebra a desmedida do ser, a música que transborda, a diferença que não precisa ser corrigida.

Amar, no fundo, não deveria ser o gesto de encolher-se para caber no outro, mas de expandir-se ao lado dele — como duas chamas que, em vez de se apagarem, se ampliam mutuamente até iluminar mais longe. Amar deveria ser a experiência rara de encontrar uma voz que se soma à nossa canção, não para abafá-la, mas para criar uma harmonia inesperada, em que nenhuma melodia precisa se calar.

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