Antes, Celebridades; Hoje, Celebridades?
Antes, celebridade era suor. Era sacrifício. Era obra. Quando se falava em alguém famoso, vinha à mente o escritor que acordava às cinco da manhã para lapidar frases como quem afia facas. Ou o pintor que passava dias em silêncio diante da tela, lutando contra a própria alma para arrancar dela cores que o mundo ainda não havia visto. Celebridades eram aqueles que, com sangue, suor e lágrimas — e não com filtros e hashtags — construíam algo que atravessaria gerações.
Vinicius de Moraes, que compunha sonetos entre tragos de uísque e risadas de boemia. Tarsila do Amaral, que ousou pintar o Brasil com formas que só ela enxergava. Chaplin, que fez o mundo rir e chorar sem dizer uma palavra. Elis Regina, cuja voz não apenas cantava, mas rasgava o peito da gente. Depois, vieram outros: Renato Russo, Cazuza, Ayrton Senna — ídolos que não se contentaram em aparecer, mas em deixar cicatrizes de beleza e intensidade na história. Eram celebridades porque criavam.
Hoje, celebridade é quem surge na tela do celular por quinze segundos fazendo careta, dançando mal ou mostrando o que comeu no café da manhã. É quem viraliza por um escândalo, por um tropeço, por um gato caindo da cama. O talento? Opcional. A profundidade? Supérflua. O legado? Quase sempre efêmero como um stories de 24 horas.
Não é que não existam talentos — existem, sim, e muitos. Mas estão soterrados sob o barulho dos que gritam mais alto, postam mais vezes, aparecem em mais capas digitais. O algoritmo virou o novo olheiro de estrelas: não importa se você toca violão, desde que saiba fazer o vídeo perfeito. Não importa se escreve bem, desde que tenha um título chamativo e uma foto sensual.
Antes, a fama coroava a obra. Hoje, a fama é a obra. Antes, era preciso merecer. Hoje, basta ser visto.
Há exceções, claro. Artistas contemporâneos que estudam, que se dedicam, que resistem. Mas são como faróis em meio a um mar de luzes piscantes: belos, necessários, mas solitários.
E talvez o problema não esteja nas celebridades de hoje, mas em nós: que trocamos a profundidade pela velocidade, a arte pela distração, o talento pelo entretenimento fácil. Celebramos quem nos faz rir por um instante, mas esquecemos quem nos fez pensar por uma vida inteira.
Antes, celebrávamos estrelas que iluminavam gerações. Hoje, aplaudimos fagulhas que se apagam antes mesmo de aquecer a noite.

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