Entre o silêncio e a friendzone
Não é o corpo que procuro,
é o invisível nos gestos,
a cumplicidade que nasce
num riso solto, num olhar demorado,
na paz de ser aceito como sou.
Preciso do tempo
para que a amizade floresça,
para que a confiança
abra portas que o desejo, sozinho,
jamais consegue encontrar.
Mas esse caminho lento
traz suas armadilhas:
enquanto levanto castelos de cuidado,
outro chega com promessas rasas
e conquista em minutos
o que cultivo em anos.
E então me sobra o papel
do amigo fiel,
aquele que ouve as confidências
do novo amor,
mesmo com o peito em silêncio,
gritando por dentro.
Queria dizer:
“não é amizade, é amor escondido em segredo”,
mas temo perder até o pouco que tenho.
E, no fim, perco de qualquer jeito:
não sou o escolhido,
sou o cenário —
testemunha discreta
do espetáculo de alguém que ganhou
sem jamais ter lutado.

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