Inventário das Falhas

 


Talvez o grande erro dos encontros seja essa vitrine de virtudes, como se estivéssemos todos numa feira de frutas, tentando parecer mais vermelhos, mais doces, mais frescos do que os outros. O problema é que, no amor, ninguém vive só de polpa. O que apodrece primeiro não é a aparência, mas o que estava escondido no fundo da caixa.

E se, em vez de gastar tempo enumerando qualidades — “sou simpático”, “adoro viajar”, “sou carinhoso” — a gente começasse a primeira conversa com a lista dos defeitos? “Sou ciumento às vezes”, “tenho preguiça de arrumar a casa”, “fico azedo quando não como”, “detesto responder mensagem na hora”. Seria um choque, claro. Mas também seria honesto.

Porque o amor de verdade não se mede pelo fascínio do palco iluminado, mas pela resistência nos bastidores. Gostar de alguém é, no fundo, aceitar as falhas que vêm no pacote. O resto é encantamento temporário, maquiagem que se dissolve com a primeira chuva.

É fácil gostar de quem parece perfeito; o difícil, e talvez o que realmente valha a pena, é gostar de alguém apesar dos defeitos. É aí que mora a prova de fogo: continuar depois de descobrir que o outro ronca, que tem manias irritantes, que não sabe cozinhar, que às vezes se fecha no próprio mundo.

O amor não se sustenta naquilo que você admira, mas naquilo que você tolera. Não é a lista de virtudes que constrói um casal, é a paciência mútua diante das pequenas misérias humanas.

Por isso, proponho um pacto: no próximo encontro, menos currículo de qualidades e mais inventário de falhas. Quem sabe, assim, a gente economize tempo — e evite confundir paixão com propaganda enganosa.

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