O Caminho que Escolhi


Escrevo como quem conversa com o próprio tempo, esse companheiro disfarçado de inimigo, que tantas vezes me cobra respostas que não tenho. O “e se” é uma sombra projetada na parede da memória — não passa de um esboço, uma caricatura do que poderia ter sido. E, no entanto, ele insiste em se vestir de verdade. Surge no silêncio da madrugada, quando tudo dorme, menos eu. Vem sorrateiro, como se tivesse o direito de me interrogar: e se você tivesse escolhido outra profissão? outro amor? outra cidade?

Eu o escuto, quase sempre, porque é impossível fechar os ouvidos para o que nasce de dentro. Mas aos poucos aprendi que dialogar com o “e se” não significa obedecê-lo. Ele é parte de mim, mas não é a essência. É o eco daquilo que não foi, mas que ainda carrega a tentação de se parecer real. E é aí que me descubro: entre o peso do possível e a leveza do concreto, entre o desejo de infinitas vidas e a coragem de viver apenas esta.

O tempo, por sua vez, sorri. Ele sabe que cada caminho escolhido elimina mil outros, mas que não há tragédia nisso. Há beleza. Porque na renúncia, paradoxalmente, mora a chance da plenitude. Não vivi todas as histórias que poderia, mas vivo a que me cabe — e essa, por mais imperfeita que seja, ainda é inteira.

E quando o dia amanhece, sinto quase como se o mundo me devolvesse à superfície depois de um mergulho fundo. O café quente, o filho que chama, o vizinho que ri alto, a planta que floresce na varanda — eis a prova de que a vida não é feita do que não foi, mas do que insiste em ser. O “e se” continua rondando, claro, mas já não me assusta: é apenas um fantasma educado que me visita de madrugada. E eu, em silêncio, o deixo falar, mas nunca mais o deixo decidir.

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