O inimigo interior

A gente cresce ouvindo que homem não chora. Que homem tem que ser forte. Que homem não pede ajuda. Que homem manda. Que homem sustenta. Que homem não se expõe. Que homem não erra — ou, se erra, engole o erro em silêncio, como se fosse um remédio amargo que não pode ser cuspido.

E aí, sem perceber, a gente internaliza. Absorve como se fosse ar. Como se fosse lei natural. Como se fosse destino.

Hoje, eu me considero um homem que luta contra o machismo. Que se informa. Que escuta. Que tenta desconstruir. Que se corrige quando erra. Que defende igualdade, respeito, direitos das mulheres. Que se indigna com assédio, com violência, com desigualdade salarial. Que educa os filhos sem gênero, que divide as tarefas de casa, que não ri de piadas machistas.

Mas ainda assim — ainda assim — o machismo vive em mim.

Vive na pontinha de orgulho quando alguém diz “você é tão sensível pra um homem”, como se sensibilidade fosse defeito. Vive no impulso automático de “resolver” o problema da mulher que chora, em vez de simplesmente ouvir. Vive naquela insegurança tola quando ela ganha mais do que eu. Vive no olhar que, por um milésimo de segundo, julga a roupa dela antes de lembrar que roupa não é convite. Vive na dificuldade de pedir ajuda — porque pedir é fraqueza, e fraqueza é coisa de “mulherzinha”. E olha aí o machismo de novo, diminuindo o feminino como insulto.

O machismo não é só o estupro. Nem a agressão. Nem o grito. Ele também é o sussurro. O hábito. O automático. O “sempre foi assim”. O “não quis ofender”. O “foi só uma brincadeira”. O “ela exagerou”.

Ele está no jeito que a gente ocupa espaço — físico, verbal, emocional — como se o mundo fosse herança nossa. Está na naturalidade com que interrompemos, explicamos o óbvio, assumimos a liderança sem perguntar. Está na culpa que sentimos quando choramos. E na vergonha de sentir essa culpa.

E o mais cruel? A gente pode lutar contra ele — e ainda assim carregá-lo. Como um vírus silencioso. Como um software rodando em segundo plano, mesmo depois que a gente acha que desinstalou.

Porque o machismo não é só comportamento. É estrutura. É cultura. É repetição. É geração sobre geração ensinando homens a serem duros, distantes, dominantes — e mulheres a serem dóceis, subservientes, invisíveis.

Desconstruir não é apertar um botão e resetar. É cavar camada por camada. É tropeçar. É se envergonhar. É se perdoar — e continuar cavando. É ouvir sem se defender. É calar a boca quando a fala não é nossa. É aprender que aliado não é título: é prática diária, incômoda, falível.

Eu ainda erro. Eu ainda falho. Eu ainda reproduzo, sem querer, o que me ensinaram a ser. Mas hoje eu vejo. E ver é o primeiro passo para mudar.

Não adianta fingir que estamos “curados”. O machismo não é uma gripe. É um câncer social. Precisa de tratamento constante, vigilância, humildade.

Então, aos homens que, como eu, estão tentando: não se iludam. Não se achem “do bem” só porque não batem, não estupram, não xingam. O machismo também mora nos detalhes. Nos silêncios. Nos privilégios não questionados. Nas atitudes “inocentes” que machucam.

E às mulheres que nos suportam nessa jornada torta: obrigado por apontar. Por cobrar. Por não nos deixar confortáveis. Porque desconforto é o preço da mudança.

Ser homem não é ser superior. É ser humano — com defeitos, com história, com responsabilidade. E com a coragem de admitir: eu ainda carrego o machismo. Mas não vou deixar que ele me governe.

O mundo não precisa de homens perfeitos. Precisa de homens que se esforçam — todos os dias — para serem menos machistas. Mesmo quando dói. Mesmo quando envergonha. Mesmo quando parece que nunca vai acabar.

A luta é diária.
E o primeiro inimigo a ser vencido... mora dentro da gente.

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