O Presente que Escapa

Vivemos como se o agora fosse um trem que atravessa a estação depressa demais, e nós, sempre atrasados, ficamos na plataforma com a mala nas mãos. Enquanto o mundo respira ao nosso redor — o cheiro do café recém-passado, o canto do sabiá na janela, o riso espontâneo de alguém ao lado —, nossa mente já corre para as reuniões de amanhã ou se prende às palavras que ficaram engasgadas ontem.

O passado nos puxa com ganchos invisíveis: arrependimentos, saudades, erros que se repetem como um disco riscado. Tentamos reescrever cenas que já não existem. O futuro, por sua vez, nos assombra com promessas e ameaças. Sonhamos com dias melhores, tememos os piores, e nesse vaivém esquecemos o dia que está acontecendo — único, irrepetível.

Esquecemos que a vida não acontece nos arquivos da memória nem nos rascunhos da imaginação. Ela pulsa aqui, agora: na textura do lençol ao acordar, no sabor do pão quente, no silêncio que antecede uma conversa verdadeira.

Há uma melancolia nisso: passamos a vida inteira esperando o “momento certo” para viver, como se o presente fosse apenas um corredor entre dois cômodos — o ontem e o amanhã. Mas talvez o segredo esteja em perceber que o corredor também é casa. Que cada passo dado com atenção já é um ato de presença. Que respirar fundo, sem pensar em nada além do ar que entra e sai, é milagre.

Por isso, de vez em quando, é preciso parar. Só parar. Sentir os pés no chão, ouvir o próprio coração, olhar sem pressa nem julgamento. Porque o presente não pede grandiosidade — pede apenas que estejamos nele. E às vezes é nesse simples estar que, enfim, a vida nos encontra.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Confissões de um Chato Feliz

Querido você,

Desarmado