Quando o Corpo Diz “Não”

Há dias em que acordo com o fantasma de mim mesmo. Não aquele fantasma assustador, de lençol branco e gemidos lúgubres, mas um mais silencioso, mais insidioso: o fantasma do que fui. Ele surge de leve, quase como uma lembrança agradável — aquela vontade súbita de correr até o ponto de ônibus, de subir dois lances de escada de uma vez, de dançar até o sol raiar, de carregar a mala pesada sem pedir ajuda. A vontade está lá, intacta, viva, pulsante. O problema é que, quando dou o primeiro passo, o corpo responde com um bocejo de cansaço, uma pontada no joelho ou um suspiro que parece vir do fundo dos ossos.

Lembro-me de quando subir uma ladeira era só questão de ritmo, não de fôlego. Hoje, paro na metade, fingindo interesse por uma vitrine qualquer, só para disfarçar o ofegar. E não é sequer uma ladeira íngreme — é um suave aclive de bairro residencial! Mas o corpo, esse traidor silencioso, já não obedece às ordens do espírito com a mesma lealdade de antes. Ele negocia. Ele reclama. Ele lembra, com doçura e firmeza, que o tempo passou — e passou por ele também.

A vontade ainda é jovem. Ela não envelhece. Ela insiste em me convocar para aventuras, desafios, loucuras. Mas agora, quando digo “vamos”, ela olha para minhas mãos calejadas, para meus olhos mais cansados, para meus músculos que já não respondem com a mesma prontidão, e sussurra: “Talvez hoje não, meu amor”.

E aí vem a aceitação — não trágica, não resignada, mas serena. Aceitar que não sou mais o mesmo não é derrota; é maturidade vestida de humildade. É entender que a vida não se mede só pela capacidade de fazer, mas também pela sabedoria de saber quando descansar, quando pedir ajuda, quando trocar a corrida por uma caminhada lenta, mas atenta.

Às vezes, sinto saudade daquele eu que não pensava duas vezes antes de pular um muro ou passar a noite em claro escrevendo poemas. Mas então percebo: esse eu de agora também tem seus encantos. Ele escuta melhor. Observa mais. Aprecia o silêncio. E, mesmo com os joelhos rangendo e os olhos mais cansados, ainda carrega dentro de si aquela chama — só que agora ela queima com mais paciência, mais profundidade.

A vontade de antes ainda bate à porta. Mas hoje eu abro com cuidado, convido para um chá, e digo: “Vamos, mas no nosso tempo”. E, surpreendentemente, ela aceita. Porque, no fim das contas, o que importa não é correr como antes, mas continuar caminhando — mesmo que devagar, mesmo que com pausas. Principalmente com pausas.

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